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28.01.2008 - Nº. 13
AFINAL A ASAE É UMA COISA MUITO BOA PARA A DEMOCRACIA EM CURSO...


------Vi e ouvi através da televisão o engº. José Sócrates defender com indignado tom as delicadas actividades da polícia embuçada, considerando «inqualificáveis» as denúncias de dirigentes oposicionistas. Apesar de poderem ter sido cometidos «alguns exageros», o primeiro-ministro proclama que os consumidores portugueses estão hoje mais protegidos. Argumentou que «é absolutamente lamentável os outros partidos enganarem-se no alvo e desatarem a atacar tudo que mexe, atacarem de forma radical uma instituição do Estado como é a ASAE». O povo, em relação ao que se lhe depara, faz naturalmente seu o pertinente assomo de tão eficaz governante.
------Garantindo que a ASAE é para ficar e durar, e presume-se que doravante sem «alguns exageros», o primeiro-ministro noutra pose também considera que os apupos populares de que tem sido alvo, como a ASAE, são também uma coisa muito boa para a democracia que decorre e apresentam-se naturalmente para ficar e durar pelo menos até 2009.
------Os factos são estes e os portugueses estão assaz esclarecidos com a sistemática toada agente que se abate sobre as suas vidas em todas as vertentes. Há já quem compare a ASAE à antiga PIDE. Que exagero!... A PIDE permitiria lá que os produtos falsificados chegassem sequer a entrar nas feiras? De resto, por falta de meios, a PIDE não dispunha de fardamento tão atraente, algo que hoje tranquíliza de imediato os benquistos cidadãos. Apre, há pessoas que são mesmo muito mázinhas a fazer comparações...

29.01.2008 - nº. 14 = «A MIM NINGUÉM ME CALA, AI NÃO-NÃO»

------Na passada sexta-feira, 26 de Janeiro de 2008, entre a unânime opinião pública que reconhece que o país chafurda em corrupção de todos os nomes (habilidades locupletantes plenas de ilicitude), o bastonário da Ordem dos Advogados, doutor Marinho Pinto, em genérico e direccionado desabafo, afirmou simplesmente o seguinte:
------ «Existe em Portugal uma criminalidade muito importante, do mais nocivo para o Estado e para a sociedade. Andam por aí impunemente alguns a exibir os benefícios e os lucros dessa criminalidade e não há mecanismos de lhes tocar. Alguns até ostensivamente ocupam cargos relevantes no Estado português».
------ Independentemente das imediatas reacções do PP, reclamando a audição do bastonário em inquérito parlamentar, e do Ministério Público, que mandou abrir processo de averiguação, algumas personalidades, e entre elas o engº. Sócrates e o dr. José Miguel Júdice, fizeram o seu comentário sobre tais declarações.
Sócrates = «Tenho a certeza absoluta que o dr. Marinho Pinto não se refere ao Governo».
------José Miguel Júdice = Acusa o actual bastonário de «tentar enlamear toda a gente» e «dar cabo» da Ordem dos Advogados, com «bocas vagas», «pazadas de lama», e sede de protagonismo. Mais critica Marinho Pinto por não concretizar as afirmações que fez sobre corrupção no aparelho de Estado. «A luta contra a corrupção é essencial, o bastonário da Ordem dos Advogados (OA) se tem alguma coisa a dizer deve dizê-lo às autoridades convenientes». O ex-bastonário explicou que tais declarações correspondem a «estratégias populistas e demagógicas», que são «contraproducentes», e pelas quais Marinho Pinto vai «continuar a dar cabo» da OA. «Eu conheço-o, tive de o afastar de responsabilidades, porque é uma pessoa que não respeita os compromissos e que só pretende estar na ribalta. Acho que as luzes, o calor dos holofotes o perturbam».
------ Eu, muito afastado da plateia e dos privilégios das classes balconistas, nas últimas filas da popularíssima geral tenho enorme dificuldade em discernir os tramados pormenores de um filme que se alonga há vários anos em sessões espectacularmente contínuas. Deveria estar muito quietinho e caladinho, que é pelos vistos a atitude que ultimamente se tem tentado impor, embora se afirme que não, à comunicação social e por aí aos portugueses.
------ Estou a lembrar-me daquele apresentador da SIC que nos polémicos programas que apresentava sobre casos do arco-da-velha repetia vezes sem conta que «a mim ninguém me cala, ai não-não». Já lá vai algum tempo. Que será feito dele?...
------Sinceramente, matutando sobre o complexo emaranhado onde as vozes unanimente não têm capacidade para sequer beliscar as nozes (e porquê?!), sensatamente considero, ao apreciar as inquietas consciências que se expandem, que o doutor Marinho Pinto, apesar das suas frontalidade e coragem, não constituirá ainda a alavanca que fará desabar os responsáveis por tanta e continuada irresponsabilidade. O sistema imperante acondicioná-lo-à entre as grades psicológicas do deixa-andar até calar.

30.01.2008 - Nº. 15 = ERRO CRASSO - TIRO NOS QUATRO PÉS

------Nas últimas «Escolhas» na RTP1, o professor Marcelo Rebelo de Sousa abordou, segundo sua óptica, a liderança bicéfala por que perpassa o PSD, considerando que o maior empolgamento de Santana Lopes apaga por completo a posição cimeira de Filipe Menezes, apontando a este por acréscimo o defeito de não se fazer ouvir por ser muito monótono nas diversas declarações.
------Bom, se a serenidade de Filipe Menezes no apreço de Marcelo é característico defeito, para mim era uma das virtudes que o recomendaria para primeiro-ministro dos portugueses, só que e de um momento para o outro, logo que o actual líder do PSD declarou que o eventual referendo sobre a rectificação do II Tratado de Lisboa não deveria ter lugar, ficou imediatamente eliminado da minha simpatia política pela decepção que me causou.
------Como é que um líder que logrou a sua eleição através do pronunciamento directo dos militantes - democracia pura - logo no azado lance adiante recusou consultar o povo sobre um desiderato que deveras dizia respeito ao parecer de todos os portugueses, preferindo alinhar ao lado do seu principal opositor e adversário político? É estranho, muitíssimo estranho, pois então não é?!...
------Quanto a mim, por este inoportuníssimo «tiro nos quatro pés», Filipe Menezes, naturalmente concertado com Santana, decepou à partida grande parte da hipótese que tinha de vir a governar Portugal a partir de 2009, decepando também, em relação a José Sócrates, a única alternativa credível que se vislumbrava. Quem, perante semelhante quadro, não lobriga desde já o menor dos males?
------Quantos terão presumido que ser a favor do gorado referendo, na oposição ao Governo, seria contrário à adesão europeia? A maioria dos nossos políticos, os profissionais de mais baixa preferência popular, optaram por passar um atestado de irresponsabilidade ao povo português, temendo que este confundisse o mal que lhe fazem com o bem que deveras almeja. Perdeu-se assim lamentavelmente uma excelente momento de conferir pela primeira aos portugueses a tomada de decisão colectiva sobre o seu destino.



Tinhas de ser qual és, calado e triste,
Misterioso, ascético, tenaz,
Para reger um povo que da Paz
Há que tempos nem sabe se ela existe...

Já, com verbo fecundo e lança em riste,
Outros tentaram a missão falaz:
Mas, com promessas boas e obras más,
Maior caos nos fizeram, como viste.

Tu então, ao dilúvio das palavras
Opões barreira sólida, e entretanto
A gleba acordas, e em silêncio a lavras...

E eis logo o prado em flor, o oiro das messes!
Quem és tu, Salazar, ou mago ou santo,
Que assim nos ressuscitas e engrandeces?

Alberto de Oliveira
31.01.2008 - Nº. 16

À CANDEIA DE DIÓGENES


Diógenes tinha um cão,
numa pipa habitação,
vivia da caridade,
era sábio, mas impúdico,
masturbava-se em público
com audaz temeridade.

Veio um dia Alexandre,
o imperador, o grande,
posto ao sol pró levar,
e o pobre pediu então
que não lhe tirasse em vão
o que lhe estava a tirar.

Diz-se que em pleno dia
alucinado acendia
uma candeia e lesto
procurava sem cessar
de lugar para lugar
à luz um homem honesto.

- Diógenes, sabe irmão,
em verdade de excepção
que não se pode negar,
no meio da lusa gente
de honestidade eminente
houve um homem: Salazar !...


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